

Final de ano histórico. Tantas coisas aconteceram do início de 2008 até hoje... mas nada que se compare a estas duas últimas semanas.
O primeiro fato que gostaria de destacar é a vitória do inglês Lewis Hamilton no campeonato mundial de Fórmula 1, no Brasil. Diante de uma platéia branca, rica, e disposta pagar entre R$900 e R$3.500 reais por um ingresso, o primeiro piloto negro da fórmula um, contratado pela McLaren-Mercedes, deu um show a parte e colocou, literalmente, a mão na massa.
A hostilidade dos “Ferraristas de carteirinha” e de muitos que se dizem torcedores da Fórmula 1 “desde criancinhas” não foram capazes de ofuscar o talento de Hamilton e da sua melanina, no exemplo de equilíbrio, talento e superação que somente os grandes pilotos têm. Foram duas derrotas consecutivas e uma vitória histórica. Ele mereceu.
Naquele momento exato me lembrei da história de Jesse Owens. História que o meu pai adorava me contar. Diante do cenário monumental preparado pelo III Reich – Hitler, diga-se de passagem – em Berlim para os jogos olímpicos de 1936, a Alemanha nazista se viu diante das velozes pernas dos negros americanos, que conquistaram nove das doze medalhas disputadas.
Um destes atletas foi Jesse Owens. Ele subiu ao pódio quatro vezes. Quatro ouros. Nem um aperto de mão do Führer. Apenas o seu ódio e a certeza inadmitida que superioridade de raça é história pra boi dormir. Mas isso não magoou Owens. Ele não estava nem aí pro Hitler. Em uma declaração dada tempos depois da competição, o herói desabafou: “o presidente FDR (Franklin Delano Roosevelt – 1933-1935) não em mandou nem um telegrama”. Roosevelt era branco, portador de poliomielite e andava de cadeira de rodas. Entendia muito bem o que era estar à margem de qualquer coisa.
Mais recentemente, um outro negro entrou para os anais da história contemporânea: Barack Hussein Obama II. Nascido em Honolulu, o esguio e elegante político – gravatas impecáveis! – quebra tabus político- sociais que vão desde o estereótipo do negro “afro”, aquele que têm que andar de trancinhas e roupas étnicas mesmo nascendo no pólo norte, até o pico máximo da governabilidade da maior potência econômica do mundo. Obama, sem dúvidas, é uma quebra de paradigmas.
Claro que não podemos negar que ambos vieram e vivem de países historicamente colonizadores, desenvolvidos e que vários atalhos foram tomados dentro deste caminho de vitórias. Porém, a origem e a história do sangue negro de Obama e de Hamilton não difere muito da nossa brasilidade, africana até o último fio de cabelo.
Mas nossos heróis negros estão esquecidos. Tem gente que até hoje não sabe que Machado de Assis era negro! Colocaram Regina Duarte para interpretar Chiquinha Gonzaga na Tv, mas a maior maestrina brasileira era, como diziam na época, “mulata”! José do Patrocínio, muitas vezes colocado à sombra de Rui Barbosa, filho de escrava e de um padre branco formou-se em medicina aos 20 anos foi um grande jornalista e grande expoente na luta pela abolição. Quantos jovens que estão concluindo o ensino médio agora sabem disso?
Para fechar o ano com chave de ouro, só uma sugestão: troquemos os pinheiros de Natal por cactos, o peru por um belo leitão a pururuca, a cabeleira branca do Papai Noel por uns dreadslocks e o enfadonho Jingle Bells por Is This Love do Bob Marley, que não era tão santinho quanto parecia, mas sabia fazer reggae como ninguém.
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