

Apesar de todos os avanços da ciência, ainda existem algumas áreas nas quais parece que estamos tateando na Idade Média do entendimento. Uma dessas áreas é o estudo do cérebro humano, a neurociência. Nossa mente é um dos mecanismos mais complexos da natureza, e a dinâmica de seus processos permanece como um desafio para os cientistas, sejam eles psicólogos, psiquiatras, neurocirurgiões, pedagogos, neurolinguistas, semióticos, etc. Todos estão bem próximos, em termos do entendimento do cérebro, das madames Zuleides, Sorayas, Rúbias e que tais que lêem sua mente, sabem do seu presente, passado e futuro e trazem a pessoa amada em três dias. Particularmente, acho que em alguns casos as madames estão na frente...
Pois bem, especificamente a mim, enquanto professor, me interessam os processos relacionados ao aprendizado. Como as pessoas aprendem é um dos mistérios mais empolgantes da mente humana. Nesta seara, convivem teorias mil em termos de qual método mais eficaz de aprendizagem: construtivismo, aprendizagem na ação, estruturalismo, etc. Cada um deles é baseado neste ou naquele autor, sendo que os mais importantes chegam a fundar uma linha específica, em que dá para rotular seus seguidores: Piaget, Montessori, e o nosso Paulo Freire. A maioria deles, entretanto, contém uma ferramenta capaz de despertar no aluno (ou educando, ou aprendiz, etc.) os mais diversos temores: o dever de casa. Se realmente alguns desses métodos tornam o aprendizado um processo prazeroso, motivacional, tenho cá pra mim que todos eles não consideram que esse processo deve estar circunscrito à escola, seja ela em horário integral ou não. Com efeito, prá mim, que fui criado dentro dos cânones da velha pedagogia do decoreba e ainda vivenciei o ocaso da palmatória, o dever de casa sempre foi uma tortura estendida. A gente já estudava na escola, por que diacho tinha que chegar em casa e continuar preso aos afazeres do colégio. Lá em casa a regra era clara: não poderia ir bater baba, jogar triângulo – brincadeira no qual uma faca ou qualquer objeto perfuro-cortante era utilizado para marcar riscos na areia, ou ainda outras brincadeiras socializantes como guerrô e garrafão, nas quais a virilidade masculina era posta à prova entre murros e pontapés, ou mesmo um inocente jogo de gude no qual “licença correr buraco” era uma expressão de educação e não tinha nenhuma outra conotação sexuada. Não. O dever de casa era soberano e pairava sobre todos os prazeres humanos, até mesmo a sessão da tarde e os desenhos do pica-pau e do pernalonga. A mim, fazer o dever de casa era uma tarefa às vezes tão árida e solitária quanto uma penitência de mosteiro.
Amigos, o Fluminense teve nesse sábado um dever de casa para fazer. Após aplicar o chocolate histórico lá em terras amadianas, o Touro teria que encarar o tigre novamente, um tigre de circo mambembe, desdentado e estropiado pelos maus tratos do domador. Só que, diferente do que ousaram pensar alguns empolgados, mesmo um tigre velho ainda se dá ao respeito. Existe, na alma humana um dispositivo que nos permite seguir adiante, mesmo que sem ter com que contar. Uma dignidade quixoteana, e essa o Colo-colo demonstrou na tarde do sábado. Aquele time um dia foi campeão baiano e isso há que ser considerado. De fato, o jogo não seria fácil. O time amarelo se espalhou em campo, mais bem postado que lá em Ilhéus e sem a obrigação de ir prá cima. Ferreira veio para, se possível, segurar um empate ou perder de pouco. Sim, porque ganhar não dava. Nem que joguem dez partidas seguidas, o Fluminense ganha oito, empata duas, mas não perde para esse time, tal é a diferença de qualidade entre os jogadores. E mesmo bem espalhado em campo, era o Flu que chegava insinuante ora pela direita, ora pela esquerda, ainda que em ritmo de bossa nova, devagarzinho, já que estávamos sem rock´n roll, quero dizer, sem Petros, cumprindo suspensão, mas substituído bem por esse promissor Sadrack. Só quando Jó resolveu transformar o jazz lento tricolor numa marchinha de carnaval, entrando pelo meio, tabelando com Ermínio e fazendo um golaço, o Jóia ameaçou um frevo. Só que logo o frevo ganhou ares de marcha-rancho, quando numa bobeira da zaga, um rebote infantil, o Colo-colo empata. O Pessimista de Oliveira, nosso corneteiro mor, já abria sua satisfação e bradava impropérios contra Laelson. Meus caros, ainda iremos aqui, à luz dos parcos conhecimentos da antropologia e da sociologia, tentar explicar o comportamento dessa tribo estranha, que paga dez reais para xingar o seu próprio time. Mas não hoje.
Fim do primeiro tempo, passamos ao lado oposto das cabines, já que nenhum ilheense se deu ao trabalho de vir à Feira, e ficamos longe dos corneteiros. Lá, à esquerda das cabines, o público é mais espalhado, continua calmo, mas é mais otimista. Começa a segunda etapa e o Flu, de uniforme trocado, vem prá cima do Colo-colo e começa o festival de gols perdidos. Porém, esse time é diferente dos anteriores do Flu. Antes a gente lamentava os gols perdidos, porque sabia que ia ser fatal para o resultado final. Mas neste time não, a gente sabe que, se perdeu três ou quatro chances, uma há de entrar. E não deu outra, Jó, o melhor em campo, já que se esforçando para ajudar Sadrack a substituir Petros – este, aliás, parece que causou uma saudade em Advaldo que jogou sonolento, melancólico – pois bem, Jó, acerta um passe magistral pra Ermínio, que dessa vez não inventa e acerta o canto do goleiro Boy. Flu 2X1. Depois disso foi só o Flu recuar, dar espaços ao Tigre que tentava desesperadamente o empate, e jogar nos contra-ataques. Mas o esforço do Colo-colo era inútil, só servindo para consagrar nosso goleiro Marcão, que fez algumas defesas daquelas que os antigos comentaristas de rádio chamavam de portentosas. No final, vimos que este foi um jogo extremamente desnecessário, em que todos sabiam seu resultado. Que só serviu como exercício, para quando formos fazer as provas contra os Vitórias. Foi apenas isso. Um chato dever de casa.
*Cristóvão Cordeiro – é torcedor taurino e professor que passa dever de casa, mas cuida prá chamar de exercício de aprendizado, prá ver se fica menos chato.
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